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  • Por Terapia Morfoanalítica
  • 08 de fevereiro de 2026

São Paulo, quinta-feira, 27 de janeiro de 2005 Caderno Equilíbrio Folha de São Paulo

Equilíbrio - Por que partir da manifestação corporal e não da expressão verbal?

Entrevista

Terapeuta francês une fisioterapia e psicanálise para tratar distúrbios
psicossomáticos

Iara Biderman
FREE-LANCE PARA A FOLHA

Do caldo das terapias corporais e psicanalíticas, o francês Sèrge
Peyrot, 56, tirou os ingredientes para criar o método que batizou de
morfoanálise -um tratamento que unifica reposicionamento postural,
conscientização corporal e massagens com terapia verbal baseada em teorias da
psicanálise.

Formado fisioterapeuta clássico na Universidade de Marselha, França, no
início de sua prática clínica Peyrot entrou em contato com o método criado
pela francesa Françoise Mézières (1901-1991), uma das pioneiras da reeducação
postural global (RPG).

A
morfoanálise trabalha com três campos: o corpo real (músculos e ossos), o
sensorial e o emocional




Ele aprendeu e adotou a técnica, mas, mesmo considerando-a muito eficaz,
percebeu que não era suficiente para curar alguns tipos de distúrbios,
especialmente aqueles chamados, de forma genérica, psicossomáticos (reações
orgânicas produzidas por influências psíquicas). Foi então beber na fonte da
psicanálise e, após um período de estudos intensivos, incluindo uma temporada
com o psiquiatra e psicanalista suíço Jean-Jacques Sarkissoff, deu corpo à
sua teoria morfoanalítica.

Em 1983, foi procurado em Marselha por um brasileiro interessado em trazer o
método para o Brasil. Dois anos depois era formada a primeira turma de
estudantes; em 2002, foi criada a Associação Brasileira de Terapeutas
Morfoanalistas (ABTM, www.abtm.com.br). Na Europa, a
terapia é reconhecida pela Federação das Escolas de Psicoterapia da França e
da Espanha.

Peyrot viaja com freqüência para o Brasil, Espanha e Suíça, onde dá aulas de
formação em morfoanálise (o curso dura quatro anos; não é preciso formação em
outra área). Quando não está fora, ensina e atende em Grenoble, na França,
onde vive. De sua casa, nos Alpes franceses, falou com exclusividade ao
Equilíbrio.

 Equilíbrio - Por que partir da manifestação corporal e não da expressão
verbal, como no tratamento psicanalítico convencional?

Sèrge Peyrot - A vantagem é que o corpo é algo muito concreto, de
acesso relativamente simples. O corpo é a caixa de ressonância de toda a vida
afetiva, emocional, física, sexual, amorosa. Ele tem uma linguagem própria. O
problema é que o paciente não conhece essa linguagem ou não sabe
decodificá-la. O morfoanalista, além de tratar os sintomas físicos, ajuda o
paciente a decodificar essa linguagem. Podemos dizer que, na morfoanálise, a
manifestação corporal tem o mesmo estatuto e o mesmo valor que o sonho na
psicanálise ortodoxa.

Equilíbrio - Como surgiu a idéia de unir, no mesmo processo terapêutico,
as técnicas corporais e verbais?

Peyrot - Há 25 anos, como fisioterapeuta, eu tratava pessoas que
tinham dores crônicas, para as quais ninguém encontrava as causas nem a cura.
Esses pacientes, chamados de incuráveis, eram muitas vezes considerados
histéricos. Não era levado em conta o valor da expressão da memória corporal
a partir do sintoma. Quando o corpo expressa um sofrimento, uma dor, isso
tem, na maioria dos casos, um componente psíquico. Se só é tratada a parte
fisiológica ou biomecânica do sofrimento, não se chega à cura. Percebi que
era preciso ajudar esse tipo de paciente a sentir o corpo e a poder falar e
pensar sobre aquilo que sentia.

Equilíbrio - Nessa época, além de fisioterapeuta, o senhor também tinha
alguma formação em psicoterapia?

Peyrot - A formação em psicoterapia veio a partir da experiência com
os pacientes considerados incuráveis. Comecei a pesquisar, formei um grupo de
estudos, fiz cursos de psicologia e terapia corporal, até chegar à
psicanálise. Conheci um psiquiatra e psicanalista suíço, [Jean-Jacques]
Sarkissoff, que tinha desenvolvido um tipo de terapia com acompanhamento
verbal muito particular. Fiz um trabalho profundo com ele e isso foi um grande
passo na minha vida.

Equilíbrio - A parte verbal da terapia morfoanalítica é um tipo de
psicanálise?

Peyrot - A nossa terapia não é psicanálise. Mas nossa referência
teórica é psicanalítica, particularmente as correntes [dos psicanalistas]
Melanie Klein (1882-1960) e [Donald W.] Winnicott (1896-1971).

Equilíbrio - E qual é a linha na parte corporal?

Peyrot - É o método das cadeias musculares, desenvolvido por
Françoise Mézières. Um dos princípios do método é que o excesso de tensão
muscular acaba provocando compressões e deformações, hipertonias [aumento do
tônus] e retrações. Outra premissa é que todos os músculos do corpo funcionam
juntos, de tal forma que, quando um músculo sofre hipertensão ou retração,
isso é informado a toda a cadeia muscular. O trabalho do terapeuta é desfazer
essas cadeias de tensões e reposicionar o corpo, considerado sempre em sua
totalidade.

Equilíbrio - Além do trabalho corporal, o que mais é feito em uma sessão
de morfoanálise?

Peyrot - O paciente chega com uma queixa e o terapeuta propõe um
trabalho corporal -pode ser um tipo de massagem ou o estiramento da cadeia
muscular posterior, por exemplo. Durante esse trabalho, o paciente modifica
as tensões do corpo e, a partir disso, associa o que acontece no corpo aos
seus sentimentos, suas sensações e lembranças. O trabalho corporal desperta
um monte de associações com as outras áreas. Trabalhamos com três campos: o
que chamamos de corpo real (músculos e ossos), o corpo sensorial (sensações,
prazer, dor) e o corpo emocional, que armazenou toda a nossa história. O
trabalho morfoanalítico favorece a comunicação entre esses três corpos.

Equilíbrio - Quanto tempo dura o tratamento?

Peyrot - Como é uma terapia analítica, o tempo do tratamento é
determinado pela evolução do processo terapêutico e varia muito de um
paciente para outro. Pode durar de meses a anos. Respeitamos muito o ritmo e
a determinação de cada um. Se uma pessoa conseguiu um certo equilíbrio,
sente-se bem com isso e quer continuar sozinha, tudo bem, o contrato está cumprido.

Equilíbrio - O morfoanalista trabalha em conjunto com médicos de outras
áreas?

Peyrot - Recebemos pacientes encaminhados por psiquiatras,
clínicos-gerais e também aconselhamos nossos pacientes a procurar outros
profissionais, quando é o caso. Recentemente, tive um paciente com depressão
profunda mas que não queria tomar remédios. Insisti para ele procurar um
psiquiatra e se medicar, e ele acabou aceitando. O morfoanalista não
prescreve medicamentos, mas encaminha pacientes para especialistas, tanto
alopatas quanto homeopatas.