image
  • Por Terapia Morfoanalítica
  • 14 de fevereiro de 2026

Entrevista Jornal do Brasil 2003

Você propõe uma interpretação dos corpos como Freud que desenvolveu uma interpretação dos sonhos ? Da mesma maneira que na Morfoanálise não existe sessão padrão preparada antecipadamente, tampouco existe uma nomenclatura onde cada parte do corpo teria um significado determinado para todos e para sempre.

-->

ENTREVISTA  JORNAL  DO BRASIL

CLARISSE  MEIRELES

Em que momento a sua formação de fisioterapeuta lhe pareceu insuficiente,
e em qual momento teve necessidade de acrescentar a  palavra  ao tratamento ? 

Ja estava no 1°ano de fisioterapia na universidade de Marselha, França, quando li « O corpo tem suas razões » da Thérèse Bertherat.

Fiquei encantado de descobrir o trabalho sutil das conexões entre corpo e psique, e me identifiquei muito.
Depois de formado trabalhei algums anos com entusiasmo mas os tratamentos de
fisioterapia classica que fragmentam o corpo considerado como um objeto não
satisfaziam a minha busca da globalidade.

Fui encontrar a Françoise Mézières, a grande fisioterapeuta pioneira da reeducação postural global, e me tornei seu aluno. Ela se interessava particularmente com pacientes  que apresentavam problemas  articulares e deformações da coluna vertebral : escolioses, lordoses, cifoses.

Ela teve a intuição que a causa desses problemas era de origem muscular e que todos os musculos são unidos entre eles e formam verdadeiras cadeias musculares. Descobriu que são os excessos de tensão, as hipertonias, as perdas de elasticidade, as retrações, e
os desequilibros do tono muscular que são responsaveis das deformações da
postura.

Entendeu que todo o sistema muscular é organizado em cadeias, a mais importante sendo a cadeia posterior que vai dos musculos da nuca até a planta dos pés passando por toda a parte posterior do corpo ; é preciso estirar todas as cadeias musculares simultaneamente,
como os fios de uma teia de aranha, para o corpo poder reencontrar seu
equilibro natural segundo os eixos fisiologicos normais. No centro dessa teia
de aranha se encontra o diafragma, responsavel dos bloqueios respiratorios :
deve imperativamente ser integrado nos estiramentos das cadeias um trabalho especifico
de decrispação diafragmática.

Do ponto de vista estritamente corporal e bio-mecânico, podemos dizer que Melle Mézières tinha uma visão global do ser humano.

Mas várias reações que não haviam sido previstas começaram a acontecer durante as sessões : ao mesmo tempo que vivenciavam o desbloqueio das tensões musculares, alguns pacientes experimentavam desbloqueios de um outro tipo que se expressavam a nível emocional. Durante as posturas de estiramento global apareciam diversos sentimentos : tristeza, raiva, amor, imagens, lembranças, que se expressavam espontâneamente. Na época, estas manifestações  eram consideradas
como reações de tipo histérico, quase como um efeito secundário não desejado.
Neste caso a sessão era interrompida e se o fato voltava a se repetir, o paciente
era encaminhado para um psiquiatra ou psicoterapeuta.

            Eu não concordava com essa atitude, nem do ponto de vista científico nem da relação humana . Sentia que esses sentimentos e emoções eram a expressão autentica e espontânea do conteúdo inconsciente das tensões musculares que a pessoa tinha conseguido soltar. Então não podiam ser excluídas do trabalho postural global.

            Muitos pacientes meus manifestavam reações emocionais intensas. Grandes quantidades de energia reprimida se descargavam nas sessões. Nesses momentos deixava de lado as preocupações tecnicas para ser UM com meu paciente e acolher a emoção naturalmente, sem julgar nem interferir. Quando a emoção se atenuava, propunha aos pacientes a colocar palavras sobre o que tinham vivenciado. A maioria sentia a necessidade de compartilhar as sensações corporais, explicar os pensamentos, as imagems, as lembranças que vinham espontâneamente. Pouco a pouco a expressão das sensações se entrelaçava com as imagens, os sentimentos, as lembranças, criando cadeias de associações produtoras de pensamento. O que podia parecer como manifestação emocional sem nenhum sentido, se revelava ser a expressão e ao mesmo tempo a tomada de consciência de traumatismos psicoafetivos antigos que estavam « guardados » no corpo em forma de tensão muscular. 

Graças ao enfoque fisiológico e bio-mecánico associado com uma compreensão anatômica muito clara e concreta da organização do sistema muscular e suas consequências sobre as deformações da postura, estava definindo um novo método de trabalho do que W.Reich, discípulo de Freud, chamava a « couraça muscular » e os psicanalistas Esther Bick e Didier Anzieu chamaram « a segunda pele muscular ». A divisão entre Soma e Psique só existe na mente de alguns cientistas. Na realidade os pacientes não vivem essa separação, ou quando a vivem é sinal de desequilibro que favorece a aparição de diversas patologias físicas e psíquicas.

            Graças a minha formação psicanalítica e meu encontro com Jean Sarkissoff, psicanalista Suiço, aprendi a entender, acompanhar e elaborar todas as emoções até as mais arcaicas, integrando a análise da relação transferencial , ou seja todos os
elementos relacionais despertados pela relação terapeuta-paciente durante a
sessão.

Mas cuidado ! A liberação da energia emocional não é suficiente para curar ! É preciso oferecer ao paciente a possibilidade de elaborar os conteúdos inconscientes dessas manifestações. O que cura profundamente é a ampliação da consciência. Quando o corpo começa a falar e a mente a sentir, a pessoa descobre uma nova dimensão e compreenção de si-mesmo.

Quais são as doenças que a Morfoanalise pode tratar ?

            Uma das doenças mais perniciosas na sociedade moderna é a perda de contato com si-mesmo. Esta é a causa de muitos problemas nas relações humanas e na saúde física e psíquica. O corpo e a mente foram criados para funcionar em interação constante. Ajudamos nossos pacientes a recuperar esta comunicação vital.

            A Terapia Morfoanalitica  é uma boa indicação terapêutica quando o sofrimento global se manifesta no corpo : dores musculares, articulares, problemas respiratórios, digestivos, fibromialgias, deformações da coluna vertebral, hernia discal, ciática,
desequilibros posturais, doenças reumatologicas…… Todas essas patologias sempre
têm um componente psicoemocional que a pessoa sabe mais ou menos
conscientemente.

            O quadro sensorial estruturado da TM se revela também muito adaptado para tratar
pessoas com sofrimentos psíquicos : estresse, ansiedade, depressão,
insônia, dificuldades afetivas, profissionais, sexuais,  anorexia,….etc. Trabalhamos em colaboração com o médico psiquiatra ou homeopata quando o P é medicado. O trabalho corporal ajuda esses pacientes a despertar os circuitos sensoriais apagados e recuperar
a capacidade de se sentir vivos dentro do próprio corpo.

            Tratamos também muitos pacientes que sofrem patologias ou doenças psico-somáticas ! São pessoas que têm dificuldade de falar os sofrimentos. Então dizem com o corpo e no corpo o que não conseguem nem organizar em pensamentos.  Na TM, damos toda a atenção à somatização, a tratamos concretamente com muitas técnicas corporais sofisticadas (posturas Mézièristas, estiramentos, massagens, reajustamento
postural, mobilizações, trabalhos respiratórios...) ;  mas ao mesmo tempo utilizamos a somatização como ponto de partida para decifrar seu significado inconsciente. Quando a dor de ser não encontra palavras para expressar-se, fala através do corpo. Quando as palavras se organizam num corpo que sente, a dor pode ser vivida,
compreedida e reparada.

Você acha que o corpo e a doença são uma forma de linguagem ? Quais são as leituras que você faz ?

            Uma das grandes questões que todos os psicoterapeutas têm que enfrentar é : como ajudar o nosso paciente a se liberar dos condicionamentos, dos hábitos e
dos esquemas de comportamento gravados no inconsciente ? Que seja no corpo, na postura, na estrutura muscular, no esquema corporal ou no aparelho psico-afetivo :  como podemos « desmemorizar » este corpo e esta mente para curar profundamente em vez de concertar momentaneamente ?

            Enquanto o tratamento não consegue apagar os traumatismos que são a origem da aparição dos sintomas, as mesmas causas vão reproduzindo os mesmos efeitos, no físico e no psíquico !

            Freud dizia que o sofrimento é reminiscente ! ou seja é um traumatismo que
aconteceu no passado e se manifesta no presente. A manifestação pode ser
psíquica ou somática, a maior parte do tempo as duas formas estão associadas.
Mas esse traumatismo não se apresenta como vindo do passado. Muito pelo contrário !
Ele é vivido e se desenvolve no presente sem conexão aparente com o passado.
Então seguindo a teoria Freudiana : se o paciente consegue rememorar a
causa do passado, ele vai poder se livrar da somatização ou da manifestação
psicoemocional no presente.

Entendemos então que para desmemorizar, é preciso primeiro memorizar, quer dizer ter acesso as causas inconscientes. Mas sabemos que pela via verbal o paciente que conta sua historia consegue chegar no máximo até os dois anos de idade. Como é que ele vai poder resgatar fatos ou situações traumáticas vividas entre 0 e 2 anos, ou durante o nascimento, o inclusive durante a vida fetal ?

            Não se pode esperar a rememoração consciente de um evento que nunca foi consciente. Esta vida arcaica que muitas vezes determina o ser humano a vida inteira, está inscrita numa memória que não pode ser rememorada pelas vias verbais ou
mentais. Porque ?

Porque nos primeiros tempos da vida o bebe ainda não tem a capacidade de pensar ou ter representações, então o processo de inscrição na memoria é puramente sensorial e corporal. Como diz Fernando Pessoa no poema chamado : o Guardador de rebanho : « os
pensamentos são todos sensações ! » 
; é como na realidade do recém-nascido : não tem pensamentos, só tem sensações !

            O corpo guarda a memória de todas as situações e experiências vividas, as boas e
as ruims, as mais recentes e as mais primitivas, em forma de sensações
propioceptivas e exteroceptivas, essencialmente na pele e nos músculos. Mas as
sensações mais primitivas permanecem irrepresentáveis e consequentemente
inacessíveis à linguagem.

            A afirmação de Freud de que o acesso aos traumatismos precoces não resolvidos só pode ser feito através dos sonhos é incompleta. A outra via de acesso ao
inconsciente arcaico (pré-natal, peri-natal, post-natal e os 2 primeiros anos
de vida) é o corpo. Só o corpo  pode permitir o retorno de um material inconsciente registrado no campo sensorial.

            Desde as primeiras sessões o trabalho de reorganização da unidade psicopostural
mobiliza a memória e o corpo começa a « contar » sua história. O
quadro da TM está preparado para acolher todas as sensações e as vivências
ligadas às experiências traumáticas primitivas.

            A revivência de um traumatismo passado pode se manifestar de muitas
maneiras ; nem sempre com uma liberação emocional visível. Mas em todos os
trabalhos corporais realizados aparecem sempre fragmentos sensoriais carregados
de afeto.  O terapeuta ajuda o paciente a unir esses fragmentos entre eles como as peças de um puzzle.  O trabalho de união das sensações entre elas e logo com sentimentos, imagems, conceitos e pensamentos, constitui a essência mesmo da reconstrução da memória ; é o que permite desativar os circuitos patologicos repetitivos. O corpo e as sensações são as raízes do psiquismo e a via mais simples para restaurar um estado de saúde natural onde os 3 corpos : real, sensorial e emocional estão em permanente comunicação e inter-alimentação.

 Em cada sessão, todas as vivencias corporais e sensoriais que aparecem são oportunidades do paciente reintegrar sua história. Isso reforça o sentimento de identidade, de valor e de contenção, e traz segurança.

Ao mesmo tempo que trabalha para reativar o sistema sensorial, o terapeuta ajuda a nomear as sensações e descrevê-las. Assim adquirem sentido, se transformam em pensamentos que podem ser utilizados para ter representações. De maneira gradual e quase imperceptível, a pessoa consegue integrar o traumatismo convertendo-o em lembrança. A situação traumática volta a fazer parte da história da pessoa e perde sua carga emocional destrutiva.

A arte do TM é guiar seu paciente para colocar palavras sobre sensações e sensações sobre pensamentos. O verdadeiro pensamento é um pensamento que se apóia e se nutre do contato com o corpo . Os  pacientes recuperam a capacidade de pensar sobre si-mesmo, conhecer seu mundo interno para viver melhor no mundo. 

Os sonhos tem um papel na Morfoanalise ?

Com certeza ! Aliás o trabalho corporal estimula naturalmente a produção dos
sonhos, pois a memória inconsciente está sendo mobilizada. Como dizia Ferenczi,
amigo e discípulo de Freud, o verdadeiro pai de todas as terapias psicocorporais :
o objetivo do análise dos sonhos é estabelecer um acesso direto à memória sensorial. Decifrar o sentido simbólico dos sonhos, associando com o corpo para achar novos vínculos e descobrir novas sensações faz parte do trabalho integrativo do Morfoanalista.

Produzimos pensamento a partir do corpo e « incorporamos » as palavras para dar-lhes carne.

Assim a gente descobre que o corpo todo pensa, basta solicitá-lo.

Como vc consegue unir numa mesma sessão de Morfoanalise o corpo, a linguagem, as emoções, as sensações ?

            Vou apresentar uma breve vinheta clínica para ilustrar como se articula a cadeia de
associações entre os diferentes campos : 

O paciente deitado, realizo um trabalho respiratório e estiramento da CV e peço que deixe passar até a bacia. A coluna vertebral se estira, o diafragma se solta, e o P começa a bocejar repetidamente. Pergunto como sente ? descreve um burraco na região do estomago, comenta que o burraco se converte num vazio, vem uma inquietude que se transforma em tristeza e como uma vontade de chorar. Lembra-se de várias situações de raiva nas quais não pôde expressar e teve que « engolir ». Enquanto se dá o direito de sentir e expressar a raiva na sessão, as sensações de vazio e  queimação no estomago vão gradualmente diminuindo. Entendemos que a repressão repetida dos sentimentos se converteu numa acumulação de tensões no estomago e no diafragma que entraram em estado de hipertonia crônica.

Nas sessões seguintes os trabalhos corporais continuam despertando a memória de sentimentos guardados no corpo e particularmente no região do estomago, mas com menos intensidade cada vez.

No final da ultima sessão se sente mais alto, estirado, mais solto na cervical e na lombar, e diz que sente a região do estomago mais livre e menos inchada. Tambem comenta :
« Minha mulher diz que agora me queixo muito mais que antes, está
preocupada ! Depois de um silêncio acrescenta : « Claro ! Antes não me queixava quase nunca, mas quando abria a boca era como uma explosão. Era um problema ! e depois
me sentia muito culpado. Agora consigo reclamar na hora ao invés de guardar, não
fico explodindo mais. »

Podemos ver como o trabalho corporal desperta sensações que trazem sentimentos. A associação dos dois estimula a memoria, a memoria viva reativa a emoção, e graças à presença empática compreensiva do terapeuta os sentimentos são liberados e integrados no corpo e na mente simultâneamente.

Vocês propõem uma interpretação dos corpos como Freud que desenvolveu uma interpretação dos sonhos ?

            Da mesma maneira que na Morfoanalise não existe sessão padrão preparada
antecipadamente, tampouco existe uma nomenclatura onde cada parte do corpo
teria um significado determinado para todos e para sempre.

            A realidade é muito mais complexa e a memória contida em qualquer região do corpo depende da historia psicoafetiva particular de cada um e não pode ser prevista. Na terapia psicocorporal analítica o terapeuta se deixa guiar pela vivência do paciente sem  induzir. 

Terapeuta e pacientedescobrem juntos as múltiplas capacidades expressivas do corpo. Cada sessão é uma criação única, fruto da comunicação e da interação dos dois.